A Exoteologia – Ou: Existe Vida Fora da Terra?

08/03/2021

Os avanços da Astronomia nos fizeram perceber que o Universo é muito maior do que podemos sequer imaginar. Os cientistas estimam que existem cerca de 200 bilhões de galáxias no universo, e cada uma tem uma média de 200 bilhões de estrelas! Isso nos permite afirmar, sem medo de errar, que existem mais estrelas no universo do que grãos de areia em todas as praias e desertos do planeta Terra(1)!

E, ao saber que cada estrela é um Sol, com pelo menos 1 planeta girando ao seu redor, nossa mente começa a "bugar" ao entender que existem muito mais planetas do que estrelas! Com este conhecimento, surge a inevitável pergunta: estaríamos nós, seres humanos, sós no universo? Nesse universo tão gigantesco, com bilhões de planetas que podem ter água, e que podem estar a uma distância favorável de seus respectivos sóis, só haveria vida aqui neste pó cósmico chamado planeta Terra?

Ao pensarmos teologicamente na possibilidade de vida fora da Terra entramos em uma área de estudo cada vez mais discutida, chamada Exoteologia ("exo" = "fora", dando a ideia de "teologia fora da Terra"). Essa matéria procura estudar como se aplicaria a Teologia para possíveis povos de outros planetas. Se (e eu disse "se") eles existem, eles também sofrem os efeitos do pecado, como nós? Eles também teriam sido feitos à imagem de Deus? O sacrifício substituto de Cristo (em nosso favor, humanos) também valeria para os possíveis outros mundos inteligentes? Afinal, eles também precisariam de um salvador?

As respostas a estas perguntas dependem das pressuposições de cada religião. Pressuposições são bases mentais fundamentais que recebemos em nossa educação; é sobre essas bases que tentamos encaixar todas as realidades. Dependendo dessa base/fundamento mental (ou pressuposição), as respostas a essas perguntas variam muito.

Por exemplo, para os evolucionistas, a vida surgiu "por acaso" aqui na Terra. Com essa pressuposição não há dificuldade alguma em aceitar que a vida possa ter "surgido" em algum outro desses inumeráveis planetas também. Para quem não sabe, a Igreja Católica é oficialmente evolucionista teísta, ou seja: o processo lento e gradual da Evolução não teria sido ao acaso, mas conduzido por Deus. Isso foi afirmado pelo papa Pio 12 em 1950 e ratificado pelo papa João Paulo 2o em 1996(3).

O papa Francisco, que crê declaradamente na Evolução teísta(2), disse em 2014 que, hipoteticamente, batizaria um "marciano" se este lhe pedisse(4). Claro que ele não acredita que haja vida em Marte, mas usou um termo bem-humorado para se referir á vida extraterrena.

Para a grande massa dos evangélicos, a possibilidade de existir vida fora da Terra é totalmente inviável devido à sua pressuposição de que todo o universo (não apenas o nosso sistema solar) foi criado na semana da criação, há cerca de 6.000 anos. Ou seja, para eles, o ser humano, criado no 6o dia, seria a coroa de toda a criação do Universo. Sendo assim, com essa pressuposição, é realmente impossível encaixar a possibilidade de vida além da Terra! O universo inteiro teria sido criado "para nós".

Uma coisa é muito estranha nesse conceito: o universo ser criado tão estupendamente gigantesco só por causa de nós, é equivalente a construir o Taj Mahal na Índia para um pequeno formigueiro em São Paulo. Pior ainda: se consideradas as proporções, é como se o Taj Mahal não fosse nem construído na Índia, mas na Lua ou além! De que serviria esse monumento ser construído só por causa das formigas?

Porém, a Bíblia apresenta a possibilidade de que, na semana da Criação, Deus já havia criado antes o Universo, há muito tempo. É a chamada teoria do intervalo. Gênesis 1:1 diz que "no princípio" Deus criou os Céus e a Terra. Isso pode ter sido muito tempo antes da semana da Criação, até mesmo milhões de anos antes. Mas apesar de ter água, a Terra esteve "sem forma e vazia" durante todo esse tempo (v. 2). Muita coisa pode ter acontecido em todo esse gigantesco universo antes de chegar a vez de nosso planeta ganhar cores, formas e vida. E então vem o verso 3: "E disse Deus: haja luz! E houve luz". Só a partir de então, há cerca de 6 mil anos atrás, Deus criou a vida em um planeta que já havia sido criado por Ele mesmo "no princípio".

Isso nos ajuda a entender por que, apesar de não crermos na Evolução, as rochas e minérios podem ter milhões (ou até bilhões de anos); pois essas coisas já existiam muito antes de Deus criar a vida na Terra. A vida, porém, vegetal e animal, é recente, pois não existia antes dessa semana especial de criação. Com essa pressuposição - a de que a semana da Criação tem a ver apenas com o nosso sistema solar, e não com o universo todo - é possível encaixar a possibilidade de vida em outros mundos. Nesse caso, nós seríamos os mais novos na criação, os "caçulas" - e os únicos que caíram em pecado e que sofrem por isso.

O que a Bíblia diz sobre "vida em outros mundos"? Em primeiro lugar, devemos lembrar que o propósito da Bíblia é para que entendamos nossas origens, a origem do mal em nosso mundo, a queda de nossa raça no pecado, o motivo de nossa esperança através de Jesus, nosso Salvador, nosso futuro glorioso ao sermos resgatados por Ele, e nossa missão e estilo de vida enquanto O aguardamos. Portanto, "vidas em outros mundos" não é o assunto da Bíblia.

Entretanto, assim como acontece com vários outros assuntos que não são o foco da Bíblia (como os dinossauros, por exemplo), podemos dizer que esse assunto passa "de raspão" em poucas ocasiões onde o foco é outro. Ou seja, esse não é o assunto, mas o contexto acaba nos deixando perceber um "pedacinho" dessa possibilidade. Vamos ver agora quais são esses poucos trechos.

Em Jó 1:6 e 2:1 vemos que satanás aparece sem ser convidado em uma reunião onde todos os "filhos de Deus" estavam reunidos. Deus, como um cavalheiro, em vez de o expulsar, lhe pergunta de onde ele vem, para que todos percebam a situação. O inimigo então disse que vem de "rodear e passear pela Terra". Deus lhe insinua que não era para ele (satanás) estar nessa reunião, mas Jó, pois não havia ninguém mais íntegro e reto do que ele. Ou seja, é muito provável que Jó só não estava nessa reunião por causa do pecado, que faz separação entre humanidade caída e Deus (Isaías 59:2).

Portanto, é muito provável que estes "filhos de Deus" não eram seres humanos da Terra, mas de fora dela. Satanás quis ser o representante legal do planeta, mas não poderia, pois ele o tomou por meio de engano. Se um humano pudesse estar lá nessa reunião, esse seria Jó, mas ainda assim ele não poderia devido à sua natureza pecaminosa, herdada de Adão.

Nessa hora é comum alguém dizer: "Espere aí! Esses 'filhos de Deus' que se reuniam diante de Deus são os anjos!". Não é tão simples assim! Há uma outra passagem em Jó onde ele diferencia os "filhos de Deus" e os anjos! São dois grupos distintos! A passagem é Jó 38:4-7, onde é dito que, enquanto Deus criava a Terra, as "estrelas da alva" cantavam e os "filhos de Deus" rejubilavam. Além do texto ser poético, "estrelas" são uma representação de anjos por toda a Bíblia (Is. 14:12; Mt 2:9; Judas 1:13; Apoc 1:20; 12:14; etc.).

Outra passagem interessante é a parábola de Jesus sobre o bom Pastor que deixou para trás as 99 ovelhas para vir buscar a única que se perdeu. Essa pode ser também uma referencia a todos os outros mundos (não necessariamente 99, pois é uma parábola) os quais Jesus deixou, e a única perdida pode ser uma referência ao nosso mundo.

A escritora americana Ellen White também interpreta dessa forma: "O Filho de Deus Se rebaixou para levantar os caídos. Para isso, deixou Ele os *mundos sem pecado*, as noventa e nove que o Amavam, e veio à Terra para ser 'ferido pelas nossas "Cristo representava pela ovelha perdida não somente o pecador individual, mas o mundo que apostatou e se arruinou pelo pecado. Este mundo é apenas um átomo no vasto domínio sobre que Deus preside; contudo este pequeno mundo perdido - a única ovelha extraviada - é mais precioso a Seus olhos que as noventa e nove que não se desviaram do redil. (...) Por este mundo, Cristo deixou os mundos sem pecado nas alturas, as 'noventa e nove' que O amavam, e veio à Terra para ser 'ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades' (Isaías 53:5)" (Parábolas de Jesus, pg. 96).

Outra passagem importante é a de Efésios 3:14-15, que diz: "Por esta razão, ajoelho-me diante do Pai, de quem recebe o nome toda a família no Céu e na Terra". Famílias no Céu? Sabemos que não são de anjos, pois eles "não se casam e nem se dão em casamento" (Mt 22:30; Mc 12:25). Anjos não têm família no sentido de pai, mãe e filhos - não existiu um anjo Adão e uma "anja" Eva para procriarem. Eles são seres espirituais criados por Deus. As famílias no Céu podem (não estou afirmando que são, mas que podem) ser as famílias de outros seres que nunca caíram em pecado. E ao recebermos Jesus como salvador, e permitirmos que ele nos perdoe, nos tornamos membros da gigantesca família universal de Deus, ou como diz Paulo em Efésios 2:19, nos tornamos membros "da família de Deus".

Finalmente, Paulo diz em 1 Coríntios 4:9, ao se referir aos apóstolos e a todos os que seguem a Cristo, que eles são (nós somos) "um espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens". A palavra traduzida aqui como "espetáculo" vem do grego "theatron", que significa um palco, onde a atenção de todos está focada. Quem estaria de olho na vida destes cristãos? Ele considera 3 níveis de audiência: o "mundo", que no grego original é o "cosmos", ou seja, toda a vida do universo é considerada aqui; depois os anjos, e depois os homens. Todos esses assistem a reação dos cristãos diante dos desafios e dificuldades do pecado. Não em "naves espaciais", como querem os de mente fértil, mas a partir de onde estão, Deus sabe como. Que todos eles testemunhem que recebemos o perdão e a graça de Jesus, e que somos fiéis a toda a prova!

Portanto, ao considerar o versículo acima, entendemos que, de algum modo, Deus permite que o nosso mundo seja "assistido", observado por todo o universo, provavelmente para que entendam que o pecado é uma tragédia na criação de Deus, e ele nunca mais aconteça. Ao observarem isso, eles mesmos, que nunca pecaram, são protegidos do pecado. E a própria morte de Cristo para nos resgatar serve como um grande testemunho da seriedade do pecado e do amor de Deus por nós. Ou seja, a morte de Cristo, além de nos perdoar e nos resgatar, serve como "vacina" para aqueles que nunca pecaram. "O plano da salvação torna manifesta a justiça e o amor de Deus, e provê uma eterna proteção contra deserção dos mundos não-caídos, bem como entre aqueles que serão remidos pelo sangue do Cordeiro"(5). É por isso que, após o plano da redenção ter sido efetivado, e nós todos estivermos salvos, "o mal não se levantará pela segunda vez" (Naum 1:9).

Exoteologia. Talvez você não se esqueça mais dessa palavra. É um assunto que não é relevante para nossa salvação. E por isso ele não é o foco na Bíblia. Os textos usados para tratarmos dele são apenas incidentais, pois o foco é a salvação dos seres humanos, que caíram do estado de pureza. Por outro lado, esse mesmo assunto nos dá uma visão muito ampliada e mais aguçada da gravidade do pecado e da imensidão do amor de Deus - além de exaltar o valor do sacrifício de Cristo por nós, que causaria espanto e admiração que vão além das fronteiras do universo visível. Esse é o nosso maravilhoso Deus. E, apesar de este mundo ser o único que pecou, a graça de nosso Senhor é tão maravilhosa que este vai ser o mundo onde Ele mesmo vai habitar após resolver o problema do pecado. Conforme Apocalipse 21:2, a Cidade Santa, onde está o trono de Deus (22:3), vai descer do Céu à Terra, e o próprio Deus habitará conosco (21:3)! Em outras palavras, se o Céu é onde está o trono de Deus, o céu será aqui, no único planeta que pecou! Isso demonstrará para todo o universo que o perdão de Deus é completo, e a Sua restauração de nossas vidas, total!

Referências:

(1) https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/story/2003/07/030722_estrela2cg

(2) https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2014/10/papa-diz-que-big-bang-e-teoria-da-evolucao-nao-contradizem-lei-crista.html (ver também https://noticias.band.uol.com.br/noticias/100000716809/papadeusnaocriouomundocomvarinhamagica.html)

(3) https://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL761923-5603,00-VATICANO+ACEITA+EVOLUCAO+MAS+NAO+SE+DESCULPA+COM+DARWIN.html

(4) https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/05/12/francisco-diz-que-batizaria-ate-marcianos.htm

(5) Ellen White, Signs of the Times, 30 de Dezembro de 1889. 

Autor Parceiro: Dr. / Pr. Natal Gardino

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